4 Set 2025

E EM VEZ DO MEDO

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E em Vez do Medo?

Fernanda querida, o Mundo esteve sempre para acabar.” A actriz Fernanda Montenegro para a sua filha Fernanda Torres.

Desde que o ser humano ergueu os primeiros altares aos deuses desconhecidos e traçou nas cavernas os contornos do seu próprio corpo ou reflexo, o medo tem sido um fio condutor na tapeçaria da existência. Não o medo primordial da fera na escuridão, mas aquele que se alastra como sombra sobre a psique coletiva: o temor do fim dos tempos, o colapso das civilizações, a ameaça do Outro que habita além do muro ou dentro de nós. Hoje, como eco de mitos antigos, vivemos sob a névoa de um Chronos velocíssimo — um presente que se dissolve em ansiedades sobre o futuro, enquanto o passado se torna um espelho partido, refletindo mil pedaços de catástrofes e utopias perdidas. Somos Alices e o outro lado do espelho é este, este onde o espanto anda sequestrado pela Angústia, esse medo estranhíssimo e irrespirável, medo de tudo por não conseguirmos dar sentido a nada. O medo: lugar de onde tantas vezes brota o ódio. A história é pródiga em narrativas de fim: os babilónios temiam o caos primordial, os maias calcularam ciclos cósmicos, e nós, herdeiros de séculos de guerras e revoluções, assistimos à ascensão de novos apocalipses: o planeta em combustão, as fronteiras que sangram, os algoritmos que amplificam fantasmas, e ainda a tristeza devastadora mesmo para quem vive no privilégio da pele clara, do género normativo, do pão na mesa, da cama quente e da paz. Porém, em cada Era, há também os que, discípulos mais avisados de Ícaro, insistem no mais razoável dos vôos: o da criação e ternura. Pergunta que nos move não é tanto como sobreviver ao medo?, mas como despertar o que há além dele, ou, Este repto E em Vez do Medo? — nasce da urgência de reescrever outras relações entre humanos, entre humanos e tempos, entre humanos e espaços, entre humanos e seres. Se o passado aparece ora como um mar de glórias ora como um rio de fracassos e dores, e o futuro ora como uma excitação Tecno-cyborg plena de potência ora como um abismo incerto, o presente torna-se o único território habitável como um verdadeiro presente, uma prenda, como a única dádiva efectiva, o único dom de se ter dado o milagre estatístico de termos nascido e crescido neste momento na terra. Talvez o único campo fértil para semear gestos de coragem. CORAGEM, esse verbo que se denuncia como uma acção do coração, esse lugar vivo de uma racionalidade ainda mais razoável. Aqui, inspiramo-nos nos antigos aedos gregos, que transformavam tragédias em epopeias, e nos quilombolas que teceram mapas de liberdade nos seus cabelos negros no meio da escravidão. Propomos uma alquimia moderna: usar a arte não como escape, mas como espada para desembainhar a luz adormecida no peito do mundo.  A filosofia, essa teimosa companheira, desde Heráclito até Hannah Arendt, lembra-nos que o medo paralisa a ação política — mas o que acontece quando substituímos a política da sobrevivência pela poética da existência? Walter Benjamin escreveu sobre o Anjo da História, que vê o passado como um amontoado de ruínas enquanto é arrastado para um futuro que não escolheu. A Nossa resposta é menos uma resposta e mais um convite a pisar fora desse turbilhão e, como as crianças de Lorca, dançar sobre o abismo com sapatos de lua.  Ao resgatarmos ferramentas ancestrais (sim, grande parte destas estratégias são tão antigas como a própria humanidade) — o teatro que desvela máscaras, a fotografia que congela e cria instantes de verdade, a música que harmoniza dissonâncias e desorganiza o ouvido rígido,  a dança que agita e liberta os corpos, etc —, não buscamos negar o medo, mas transfigurá-lo. Como os construtores de catedrais medievais, que esculpiam gárgulas para exorcizar demónios, propomos esculpir beleza a partir do caos. Se o capitalismo neoliberal e seus novos fascismos vendem o medo como mercadoria, nossa moeda será a imaginação radical, aquela que, nas palavras de Octavio Paz, inventa esperança porque a realidade a nega.  Este programa é uma cartografia do possível. Nele, o fim do planeta torna-se uma chamada à regeneração, o medo do Outro quer dissolver-se em cerimónias de escuta, e a violência quer-se desarmada por coreografias de empatia. Não se trata de um otimismo ingênuo, mas da coragem de tecer, juntos, um novo cronótopo — um lugar-tempo onde passado, presente e futuro não tenham que ser inimigos, mas fios da mesma tecelagem. Afinal, como nos ensinaram os povos andinos ao entrelaçar o ayni (reciprocidade) em cada gesto, a única resposta ao medo é a comunidade que se faz ponte.  Sejamos Pontífices, pois. Deixemos os muros para os vendedores de dor. E em Vez do Medo? é um manifesto silencioso que se quer muito alto, um ritual de renascimento. Porque, no fim, não há civilização que sobreviva sem aprender a dançar com suas próprias sombras — e a transformá-las em faróis, ou pelo menos, em lanterninhas de ver na noite.

Marta Bernardes, curadora da Bienal Cultura Educação #2